Blade Runner

título original: Blade Runner – o caçador de andróides

gênero: Ficção científica

diretor: Ridley Scott

roteiro: Hampton Francher e David Webb Peoples, baseado em livro de Philip K. Dirk

elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson

pais: EUA

ano: 1982

duração: 118 minutos

número de estrelas: ★★★★★

público: Todas as idades

conteúdo: S V


 

SINOPSE

Seis replicantes modelo Nexus 6 chegam a terra, foragidos de uma colônia espacial. Os replicantes são andróides, com aspecto idêntico ao dos humanos, criados pelo homem para realizar trabalhos mais duros e perigosos. Conseguem escapar das colônias numa rebelião, onde mataram mais de vinte pessoas, com o objetivo de encontrar seu criador e conseguir que sua existência, programada para quatro anos, seja prolongada. Na terra, os replicantes são ilegais e são perseguidos por um corpo policial, chamado de blade runner (Caçadores de Andróides). Deckard (Harrison Ford) é um deles e esta missão lhe será confiada


DEBATE

 

BLADE RUNNER. A PERGUNTA SOBRE A ESSÊNCIA DO HOMEM.

Por Vicente Huerta

Tudo que ele queria eram as mesmas respostas que todos nós queremos. De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo eu tenho? Deckard (voz em off), do script de BLADE RUNNER.

Blade Runner é um dos filmes mais representativos dos anos 80 e chegou a converter-se num verdadeiro clássico do gênero de ficção – científica. A história se passa em data e lugar concretos: “Los Angeles, novembro de 2019”. A partir deste posicionamento espaço-temporal, RIDLEY SCOTT desenvolve questões como o real e o imaginário, substituindo o natural pelo artificial: a desumanização das cidades, o desequilíbrio ecológico, etc. Mas o que dá ao filme o sentido filosófico é a pergunta do homem por seu tempo, interrompido pela morte.

Blade Runner é, acima de tudo, um filme que nos fala da natureza humana e para isto, joga com a constante comparação entre os humanos e os replicantes. Muitas vezes ficamos em dúvida entre as fronteiras do humano, inclusive, nos convencemos de que muitas vezes os replicantes se mostram “mais humanos do que os próprios humanos”, tal como proclama lema das Indústrias Tyrrell, onde os replicantes são fabricados. No fundo do filme palpita, o tempo todo, a questão sobre a essência do homem.

É necessário advertir que foram comercializadas duas versões deste filme, diferenciadas principalmente pelo desenlace final. A versão do produtor e a que foi comercializada primeiro é aquela onde Deckard, o protagonista, é um humano; na outra, a versão do diretor, ele é um personagem mais impetuoso e duro, com uma natureza que mais se parece com a de um replicante.

A partir daí, surgem espontaneamente perguntas de caráter filosófico na mente do espectador:
O que diferencia os replicantes dos humanos?
Quais características nos levam a pensar que uma vida é humana?
O que nos torna humanos?

Há uma variedade de respostas a estas questões. A primeira é a referência à origem. A referência ao criador está no centro da própria criatura, ali onde tudo se apóia e do que tudo depende. Os replicantes parecem ter consciência disto e não é em vão que tem muito claro o seu objetivo: Procurar o seu criador.

Portanto, a primeira característica do humano seria ter a sua origem num pai.

Aqui nos é proposta uma possível leitura mítico-religiosa desta história. Como é sabido, os mitos não são raciocínios, não encadeiam idéias, senão imagens, não explicam senão materializam, simbolizam alguns ensinamentos a respeito do que somos nos falam verdadeiramente sobre o que somos, ajudando-nos a conhecer-nos em aspectos delicados, ainda que seja de um modo imperfeito.

O mito era uma forma de conhecimento sapiencial muito valorizado na antiguidade. ARISTÓTELES –por exemplo –costumava afirmar: quanto mais envelheço, mais me torno amante dos mitos.
Nossa cultura é eminentemente técnica onde muitas vezes, sentimos falta justamente dessa sabedoria existente no conhecimento, que nos fala dos temas centrais da vida humana e das constatações que afetam o homem: a origem e o destino. A sabedoria nos diz de onde viemos e para onde vamos.

O mito sobre a origem

O que Blade Runner propõe não é tanto dar explicações, mas sim transformar em imagem algo que constitui uma parte delicada de nós mesmos. No fundo, é tornar a propor, nos anos 80, antigos mitos amplamente desenvolvidos na literatura e na arte de todas as épocas: O mito sobre a origem. A relação entre criatura e criador faz parte de muitas cosmologias e se aplica ao homem e ao seu duplo vértice de criatura e criador. É a busca de uma resposta ante a pergunta sobre nossa origem. Neste sentido, Tyrrell é um moderno Dr. Frankenstein ou Gepetto (Pinochio). Criatura e criador mantêm uma relação misteriosa e ambivalente. O ser humano (pessoa) exige que as relações sejam amorosas: apenas o amor é uma relação adequada para a pessoa; por isso, a pessoa necessita de um pai.

Blade Runner também nos traz o problema da rebelião da criatura ante seu criador, tema bem conhecido pela filosofia moderna. O que faz os replicantes virem a terra, é uma reclamação: criados com pouco tempo de vida, o medo de morrer é o que os move. Frente à negativa de Tyrrell em atendê-los, Roy, o chefe dos replicantes arrancará seu cérebro, o mesmo cérebro que o criou. Uma cena horripilante: a criatura aniquila seu criador, algo que nem mesmo Frankenstein se atreveu a fazer. É o mito de Prometeo. Deckard será o “braço armado” que defende o criador ante a ameaça dos replicantes, mas, curiosamente o amor por uma replicante gera nele uma convulsão tal que acaba ficando do lado deles. Faz bem ou mal agindo assim?

A imagem de Roy também é interessante, ( representado simbolicamente como uma espécie de Zeus) com seu “deocídio”. Ao assassinar Tyrrell, seu criador, parece que se humaniza, aceitando livremente seu trágico destino. Evidentemente se tratava de um falso deus, pois só um falso deus poderia morrer. A angustia de Roy ante a morte o tornará tremendamente humano e próximo a nós que, no fundo, não podemos esquecer que também temos “prazo de validade”.

A natureza humana

A pergunta “o que nos torna homens?” tem a rigor, uma resposta: a natureza humana, um modo de ser ao qual corresponde um determinado dinamismo em agir. Neste sentido, o filme dá uma importância especial aos sentimentos. Advertem-nos que “os replicantes foram desenhados como cópias dos seres humanos em todos os sentidos, exceto nas emoções”. Mas os designers acreditam que “ao longo de alguns anos podem desenvolver suas próprias respostas emocionais: ódio, amor, medo, ira, inveja…”. Isto torna seu comportamento especialmente inquietante e nos obriga, em nossa busca filosófica, a nos questionarmos o que torna o sentimento dos homens realmente humanos (Já que os animais também parecem ter certos sentimentos).

O homem acrescenta finalidades mais elevadas às suas tendências inferiores. O homem almeja novos objetivos (transcendentes) que vão muito além de suas necessidades orgânicas: arte, cultura, religião, etc. É justamente essa transcendência o que nos impressiona em Roy, o último dos replicantes. Em sua luta mortal com Deckard não é o instinto de sobrevivência o que marca seu comportamento, mas antes, surpreendentemente, seu amor pela vida: não só por sua vida, mas a vida de todos, “minha vida” (afirma Deckard).

Como vemos, em alguns momentos são os replicantes que mostram com maior lucidez as mais profundas inquietações do homem. Quem sabe, uma das questões que mais “humanizam” a vida destes replicantes não seja a pergunta sobre o fim. A pergunta O que é o homem? Transforma-se na pergunta sobre o fim: Até onde sou capaz de chegar? Como viver para que minha existência tenha sentido? A pergunta pelo fim nos situa no plano moral. Podemos ver que os replicantes têm questionamentos morais, preocupam-se com o que está certo ou errado não apenas no momento da morte violenta de cada um deles (manifestam profundos sentimentos de compaixão e solidariedade), mas também na hora de enfrentar a própria morte, especialmente no caso de Roy, que em determinada ocasião trata de fazer um balanço moral de sua vida. Vejamos o seguinte diálogo que acontece quando, finalmente, Roy se encontra com seu “criador”:

Roy: Não é tarefa fácil encontrar seu criador.
Tyrell: o que eu posso fazer por você?
Roy: O criador pode consertar o que fez.
Tyrell: você gostaria de ser modificados?
Roy: E ficar aqui? tinha em mente algo um pouco mais radical.
Tyrell: O que? O que o preocupa?
Roy: A Morte.
Tyrell: A Morte? Bem, temo que isto seja um pouco fora da minha jurisdição, você…
Roy: quero viver mais.
Tyrell: A vida é assim. Fazer uma alteração no desenvolvimento de um sistema orgânico de vida é fatal. O código de uma seqüência não pode ser alterado, uma vez que tenha sido estabelecido… Você foi criado o mais perfeitamente possível.
Roy: Mas não para durar.
Tyrell: A luz que brilha com o dobro da intensidade, dura a metade do tempo. E você brilhou com muitíssima intensidade, Roy. Olhe para você, é o filho pródigo. É um prêmio.
Roy: Eu fiz coisas más…
Tyrell: E também coisas extraordinárias. Aproveite o seu tempo.

Vemos aqui a relação ambivalente entre criatura e criador. De fato, não se pode dizer que seja uma relação pai-filho. Tyrrell não parece comover-se muito ante a sorte do desesperado Roy, mas o anima a aceitar as coisas com resignação. Mais uma vez nos identificamos com o replicante e sua angústia diante da morte prematura porque, na verdade, intuímos que toda a morte é prematura, que esta perfeição para a qual tende toda a natureza humana se apresenta quase inatingível e por isso, queremos viver. Essa angustia manifesta, no fundo, o caráter aberto e inacabado do homem.

Mas é na seqüência final do duelo entre Roy e Deckard é onde se manifesta de um modo mais claro, com as poéticas palavras de Roy, a verdadeira humanidade dos replicantes. Sob a aparência de brutalidade se esconde, nos replicantes, uma espécie de supra-humanidade, que se manifesta no inconformismo em serem máquinas programadas, seu desejo de viver, sua pergunta pelo sentido da vida, seu amor à liberdade (se negam a ser escravos). São eles quem propõe as grandes perguntas existenciais: quem somos? De onde viemos? O que será de mim? Para onde vamos? Por que não podemos viver mais? Deckard está aí para comprová-lo:

Roy: “Vi coisas que vocês humanos não acreditariam. Naves de ataque em chamas nas bordas Orion. Vi raios-C brilharem no escuro perto do Portal de Tannhauser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva. É hora de morrer”.
< Roy morre, a pomba sai voando para o céu >.

Deckard (voz em off): “”Não sei por que ele me salvou. Talvez porque, nos últimos momentos, ele amasse a vida mais do que nunca. Não somente a sua vida. A de todos. A “minha vida”. Tudo que ele queria eram as mesmas respostas que todos nós queremos. De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo eu tenho? Tudo que eu podia fazer era ficar sentado e vê-lo morrer”.

O tempo, o amor e a morte

Por fim, vemos seres que sentem a vida como nenhum humano e temem a morte, desejam ardentemente tanto ter um passado (uma história) como expectativa de futuro. O passar do tempo tem uma importância especial no filme, contribuindo à crescente dramaticidade da história. Os replicantes querem mais tempo, querem que o tempo não passe por eles. Também isto os torna mais humanos. O prazo de tempo concedido para Roy vai acabando antes que conclua a missão que ele havia encomendado para sí próprio (libertar-se do tempo).

Mas, sobretudo, o que mais os torna humanos é do que são capazes de amar. A morte de Pris faz que Roy manifeste para ela um amor apaixonado. Depois, no duelo final entre Roy e Deckard o primeiro salva a vida do segundo mostrando assim que o amor à vida está acima de todas as coisas (ódio, desejos de vingança, etc.). É capaz inclusive de amar desinteressadamente.

O filme propõe um dos grandes temas: a redenção pelo amor. Só o amor torna possível fugir da escravidão do tempo. Só o amor nos torna melhores e dá sentido a nossa existência. Neste aspecto, é importante lembrar do amor entre Rachael e Deckard, que é central no desenvolvimento da história. Na seqüência (amorosa) do piano entre Deckard e Rachael, quando ela expressa suas dúvidas a respeito da autenticidade de suas recordações Deckard diz “você toca muito bem”, numa exaltação do presente amoroso, como dizendo que o amor prescinde do passado e do futuro. Na verdade, não tem muito mérito no fato de tocar bem piano, pois se o faz é porque foi “programada” para isso, e Deckard sabe, mas não se importa, agrada-lhe ouvir-la tocar o piano porque a ama, e esse amor fará com que procure salvá-la. Mas será Roy quem assumirá de um modo mais claro o papel redentor, salvando Deckard. Não só amava a alguém, senão a todos. Não só sua vida; a vida de todos. Deckard enfrentava uma morte certa e, quando estava perdido, aparece uma mão salvadora, curiosamente, uma mão traspassada por um prego.


 

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *