“Todo o tempo fui compelida a realizar o aborto”

Por Janaina da Silva César

O texto que segue é o testemunho autêntico de Janaína, que, resistindo à pressão de médicos e conhecidos, decidiu levar até o fim a gestação de seu filho Thalles, que sofria de anencefalia. O relato foi reproduzido fielmente, corrigindo-se apenas eventuais erros de digitação, e foi extraído do site do Instituto Pró-vida de Anápolis.


Venho por meio deste relatar a minha experiência enquanto mãe de um filho anencéfalo. Sou estudante de Direito do 9º semestre, na Universidade Católica de Brasília. Há três anos, em virtude de um namoro, engravidei e, devido a circunstâncias afetivas, acabei por ficar sozinha. À época, tinha dezenove anos.

Tive que enfrentar todas as questões familiares, a vergonha, enfim, todo o constrangimento de uma gravidez no fim da adolescência. Felizmente, não obstante todo o sofrimento que experimentaram, meus pais, por serem católicos, me acolheram.

Passaram-se três meses e, por fim, o pai da criança resolveu acompanhar-me numa ecografia: era o dia em que conheceríamos o sexo do bebê. Naquela oportunidade, a médica ecografista foi bastante cuidadosa, mas não havia como omitir a anomalia de que sofria meu filho: era anencéfalo.

Obviamente, tal notícia assustou-me e eu, a principio, não fui capaz de absorver a realidade, até porque nunca tinha ouvido falar em algo semelhante. Já naquele momento a doutora levantou a possibilidade de um aborto, mesmo não se mostrando muito favorável à idéia.

No mesmo dia, à tarde, procuramos outro médico, em um hospital particular de Brasília, que por sua vez disse: “Menina, pra que você quer uma coisa que não presta? Se fosse minha paciente, eu te levaria agora para a curetagem”. Eu não sabia o que era curetagem; depois me explicaram tratar-se, naquele contexto, de um eufemismo para a palavra aborto.

Felizmente, pude contar com o acompanhamento de outra médica particular e, então, dei continuidade ao pré-natal.

Desde o primeiro dia, quando foi constatada a malformação, a ecografista e também a minha ginecologista-obstetra informaram-me sobre uma equipe médica especialista nestes casos, que atendia no HMIB – Hospital Materno-Infantil de Brasília. Na oportunidade, disseram-me que se tratava de uma equipe médica perita em casos de gestação de alto risco, seja para a mãe ou para o filho.

Alguns dos amigos da faculdade aos quais relatei a situação disseram-me que o Ministério Público concedia autorizações para mulheres que desejassem fazer o aborto, principalmente para aquelas que recorressem à referida equipe médica do HMIB. Por isso, a princípio, resisti a marcar uma consulta naquele hospital. Contudo, visando as melhores condições para mim e para o meu filho, busquei um encaminhamento no posto de saúde do Núcleo Bandeirante, tendo em vista que se tratava de um ponto de referência, e eu queria que o meu filho recebesse os cuidados necessários após o parto, caso viesse a sobreviver ao corte do cordão umbilical.

Realmente, eu já estava decidida a não abortar o meu filho. Tal possibilidade somente passava na minha mente por força das palavras, muitas delas duras, que ouvia dos médicos, mas tal possibilidade não emanava do meu interior. Queria conviver com o Thalles o tempo que fosse possível; já estava no sétimo mês da gestação e não fosse o fato de que ele era anencéfalo, tudo o mais corria na maior naturalidade. Sentia-me bem, não tive alterações fisiológicas, além daquelas naturais da gestação como, por exemplo, o aumento de nove quilos de peso.

Enfim, qual foi a minha surpresa ao constatar a realidade do atendimento naquela equipe de excelência: todo o tempo fui compelida a realizar o aborto. As consultas com a referida equipe eram marcadas uma vez por semana. Cerca de doze mulheres e seus eventuais acompanhantes ficavam numa ante-sala sem assentos suficientes, aguardando a consulta. Todas elas estavam grávidas de crianças com as mais diversas malformações – de algumas delas nunca tinha ouvido falar. Havia ali mulheres muito pobres, outras que já haviam tido filhos com aquelas deformidades anteriormente. Conversavam entre si, enquanto eu as observava. Percebi que eu era a única que tinha um filho anencéfalo.

Enquanto aguardávamos, pude presenciar um momento que me chocou deveras. É que elas estavam conversando a respeito de uma mãe que tinha passado por ali, algumas semanas antes e que naquele dia estava realizando a interrupção da gravidez. Pude presenciar aquela mãe sentada no corredor do hospital, chorando muito após o parto. Ela estava lá sozinha – porque não permitem acompanhantes no pós-parto de maiores – e sequer, conforme relatou, permitiram-lhe ver o seu filho direito, o que lhe causou muito sofrimento.

Chegou a minha vez e, como relatei, os médicos, na pessoa do médico-chefe, diziam-me que eu já deveria ter feito a chamada interrupção, que uma cesariana traria para mim riscos muito maiores que a interrupção, que eu não deveria mostrar o meu filho para ninguém após o parto e até mesmo que eu poderia ficar cheia de estrias. Tudo para que eu interrompesse a gravidez.

Realmente, se fosse necessário recorrer àquele hospital para dar continuidade à gestação, o meu sofrimento teria sido triplicado.

Enfim, graças a Deus, eu e o Thalles superamos todos os preconceitos e dificuldades. Amei-o com toda intensidade que consegui. Cantei, rezei, brinquei, ou seja, fiz tudo o que uma mãe faz com o seu filho no ventre.

Ele nasceu às 13:15 hs do dia 09.07.2002, foi registrado como cidadão brasileiro e faleceu às 11:25 hs do dia 10.07.2002. Tive a oportunidade de segurá-lo no colo e de me despedir dele. Hoje trago uma linda e real lembrança de uma gravidez que teve algumas dificuldades intrínsecas à situação, mas que me trouxe muitos benefícios enquanto pessoa humana e me deu uma grande alegria: a de ser mãe. Sou mãe do Thalles, vivo ou morto, bonito ou feio, presente ou ausente. Sou mãe dele porque ele efetivamente existiu e foi gerado em mim; o tempo que ele permaneceu com a minha família e toda a multidão que ia vê-lo na incubadora, foi um grande lucro.

Mais do que da liberação do aborto, as mães de filhos anencéfalos necessitam é de apoio e esclarecimento, valendo ressaltar as incoerências que têm sido divulgadas. A atitude do governo deve ser a da prevenção desta malformação, com a distribuição de ácido fólico, com o combate ao uso de drogas, etc. Enfim, não vai ser por esse caminho, aparentemente mais fácil, que as mães terão a sua dificuldade sanada, mas no acolhimento e na solidariedade.

Brasília, 19 de agosto de 2004.

 

Fonte: Instituto Pró-vida de Anápolis

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