A filosofia de Santo Agostinho

Por Rafael Gómez Perez

A filosofia de Santo Agostinho (354–430) tem como eixo central a busca da verdade que culmina em Deus:
uma reflexão ao mesmo tempo apaixonada e rigorosa sobre o conhecimento, a existência de Deus, a natureza do homem e o sentido da história.
Influenciado pelo platonismo mas superando-o, Agostinho construiu um pensamento que moldou toda a cultura ocidental — e permanece surpreendentemente atual.

Uma das maiores personalidades da história universal, Santo Agostinho foi um grande retórico, um grande filósofo e um grande santo da Igreja. Sua obra, ao mesmo tempo vasta e profunda, exerceu e exerce muita influência em toda a cultura ocidental.


Quem foi Santo Agostinho?

A vida de Agostinho o torna inteligível também para muitos não-cristãos. Retórico, homem do mundo, primeiro maniqueu, depois platônico, finalmente convertido — fez um longo esforço para encontrar a chave da inquietação que o devorava. O momento da conversão foi contado por ele mesmo com um gênio literário inimitável nas Confissões.

Ordenado sacerdote sem o pretender, chegou ao episcopado da mesma maneira. E desde então carregou sobre si grande parte da responsabilidade da Igreja — enfrentando a heresia de Pelágio e o cisma dos donatistas. Sua morte é um símbolo: morre em Hipona enquanto os vândalos sitiavam a cidade. Com ele, morre a cultura antiga e nasce outra nova.

Suas principais obras filosóficas incluem: Contra Acadêmicos (crítica do ceticismo), De beata vita (sobre a felicidade), De ordine (sobre a origem do mal), os Soliloquia (diálogo sobre a imortalidade da alma) e o monumental A Cidade de Deus.

A busca da verdade: o amor como peso da alma

A filosofia agostiniana é uma constante busca da verdade que culmina na Verdade, em Cristo. É um movimento incessante movido pela paixão principal: o amor. “Amor meus, pondus meum” — o amor é o peso que dá sentido à minha vida. E nas Confissões, a frase mais famosa de toda a filosofia cristã:

“Fizeste-nos, Senhor, para Ti — e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em Ti.”

— Santo Agostinho, Confissões

Essa “passionalidade” não é irracionalismo. Agostinho incita a ter fé para entender — mas também a entender para crer melhor. Contra o ceticismo, responde com uma intuição que antecipa Descartes em mil anos: Si fallor, sum — “se me engano, é prova de que sou”. E mais diretamente: “Sabes que pensas? Sei. Ergo verum est cogitare te — logo é verdade que pensas.”

A verdade, para Agostinho, está no interior do homem. As verdades eternas e imutáveis — como o fato de que dois mais dois serão sempre quatro — não podem vir das sensações (mutáveis) nem do espírito humano (limitado). Só podem ter por autor Aquele que é eterno: Deus. É o que ficou conhecido como a doutrina da iluminação: as verdades eternas são reflexos da Verdade eterna que nos ilumina.

A busca de Deus: o ser que fundamenta tudo

Em Santo Agostinho não existem provas formais para a existência de Deus — mas toda a sua obra é um itinerário em direção a Ele. Deus é intimior intimo meo: mais íntimo ao homem que a própria intimidade humana. E as coisas falam de Deus o tempo todo. Num célebre texto das Confissões, Agostinho as interroga:

“Perguntamos-lhes: ‘Sois Deus?’ E respondem: ‘Não, fomos feitas. Continua a buscar’.”

Nessa imagem está, em forma retórica, o argumento da contingência: a mutabilidade exige o imutável; os graus de perfeição exigem o Ser perfeito. É o que São Tomás de Aquino sistematizará séculos depois na sua quarta via. O melhor nome para Deus? O que se lê no Êxodo: “Aquele que é.” Non aliquo modo est, sed est est — não é de algum modo, mas é simplesmente.

O mundo como criação: a bondade da matéria

Deus cria todas as coisas do nada — por pura bondade, sem nada preexistente. “Porque Deus é bom, somos.” A criação é gratuita. Com isso, Agostinho supera definitivamente o universo grego eterno e acaba com as ambiguidades de Orígenes.

Toda criatura é composta de matéria. E aqui Agostinho vai contra o espiritualismo platônico: o corpo não é mau. É criação de Deus, e por isso, bom. Não é o cárcere nem o túmulo da alma:

“Não é o corpo o teu cárcere, mas a corrupção do teu corpo. O teu corpo, Deus o fez bom, porque Ele é bom.”

— Santo Agostinho

O enigma do homem: alma e corpo, Deus e si mesmo

Os dois grandes temas agostinianos são inseparáveis: Deus e o homem. “Que te conheça a ti e que me conheça a mim mesmo.” Nos Soliloquia: “Quero conhecer Deus e a alma. Nada mais? Absolutamente nada mais.”

Agostinho sofre a influência do platonismo — “o homem é uma alma que usa um corpo” — mas vai além dele. Em A Cidade de Deus, afirma com clareza: “Não é a alma todo o homem, mas a melhor parte do homem; nem todo o homem é o corpo, mas a porção inferior do homem. Quando as duas estão juntas, temos o homem.” Todo aquele que quer eliminar o corpo da natureza humana, diz ele, “desvaira”.

A alma é imortal porque conhece verdades imortais e eternas. E permanece um mistério — assim como o tempo, sobre o qual Agostinho escreveu a análise mais famosa da filosofia antiga:

“Se ninguém mo pergunta, sei; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não o sei.”

— Santo Agostinho, Confissões, Livro XI

A Cidade de Deus e a filosofia da história

A Cidade de Deus é uma das grandes obras da história universal — e uma das mais mal lidas. A oposição entre Cidade de Deus e Cidade Terrena não é a oposição entre Igreja e Estado. O próprio Agostinho esclarece:

“Dois amores criaram duas cidades: o amor próprio, que leva ao desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus, que leva ao desprezo de si mesmo, a celestial.”

As duas cidades estão misturadas e imbricadas na história. Na Igreja podem existir homens que pertencem, na realidade, à cidade terrena — e fora dela podem estar predestinados à cidade celestial. A “peneira” só virá no final de cada história pessoal e no final da história toda.

A concepção agostiniana de história é aberta: não existe uma “lei da história”, não conhecemos o futuro. Só Deus conhece o final. O homem move-se às apalpadelas no campo da história — que forma como que um belo poema no qual intervêm Deus e o homem. Em toda a história da filosofia, será preciso esperar Hegel para encontrar outra concepção igualmente global — embora em Hegel ela tenha um sentido panteísta.


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Fonte: História básica da filosofia, Editora Nerman, São Paulo, 1988, págs. 70–74.

Tradução: Peter Pelbart

Perguntas frequentes sobre a filosofia de Santo Agostinho

O que é a filosofia de Santo Agostinho?

A filosofia de Santo Agostinho é uma busca apaixonada da verdade que culmina em Deus. Influenciada pelo platonismo, mas superando-o, tem como temas centrais o conhecimento da verdade, a existência de Deus, a natureza do homem (corpo e alma) e o sentido da história. Sua marca é a unidade entre razão e fé, filosofia e amor.

Qual é a ideia central das Confissões de Santo Agostinho?

As Confissões são um diálogo direto de Agostinho com Deus — um relato da sua busca pela verdade, passando pelo maniqueísmo e pelo platonismo até a conversão ao cristianismo. A ideia central está na frase mais famosa da obra: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti — e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em Ti.”

O que é a doutrina da iluminação em Santo Agostinho?

A doutrina da iluminação afirma que as verdades eternas e imutáveis que o homem conhece — como verdades matemáticas ou morais — não podem vir das sensações (mutáveis) nem do espírito humano (limitado). São reflexos da Verdade eterna de Deus, que ilumina a razão humana e a torna capaz de conhecer o que é verdadeiro.

O que são a Cidade de Deus e a Cidade Terrena?

As duas cidades de Agostinho não representam a Igreja e o Estado, mas dois tipos de amor: o amor de Deus (que leva ao desprezo de si mesmo) e o amor próprio (que leva ao desprezo de Deus). Ambas estão misturadas na história — e só serão separadas no juízo final.

Qual a diferença entre Santo Agostinho e São Tomás de Aquino?

Agostinho (séc. V) é influenciado pelo platonismo e pensa a filosofia como busca apaixonada e interior da verdade. Tomás de Aquino (séc. XIII) sistematiza a teologia com base em Aristóteles, com método mais rigoroso e escolástico. Mas o próprio Tomás reconhece que não precisou modificar nada de substancial na metafísica agostiniana — especialmente na questão do ser de Deus.

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