Elegância: a beleza que vem de dentro — e por que vai muito além das boas maneiras

8 min de leitura

Por Ricardo Yepes Stork

Elegância é a presença do belo na pessoa: não apenas na aparência exterior, mas na conduta, nos gestos, nas palavras e, acima de tudo, no caráter.
A verdadeira elegância não é uma característica puramente externa: vem de dentro, fruto da posse completa da própria interioridade. Quem não vive em harmonia consigo mesmo não pode ser elegante, porque não é senhor de si.


Elegância, dignidade e o que os outros pensam de nós

A dignidade humana é hoje tema de inúmeras discussões políticas e jurídicas. Mas raramente se fala dela num enfoque intimista e estético, e seria muito instrutivo. A dignidade envolve também aquilo que enobrece ou degrada a pessoa diante de si mesma e, consequentemente, diante dos outros. Comportar-se dignamente é algo que se aprende e tem a ver com uma verdade simples: o feio é indigno, e deve ser substituído pelo belo e elegante.

A gama de atitudes humanas que entram em jogo para preservar a dignidade é extremamente rica. As mais importantes são a vergonha, o pudor e a elegância: três atitudes inseparáveis que percorrem o caminho desde o que é mais baixo (a feiura) até o que é mais alto (a beleza).

A vergonha: quando algo em nós nos parece indigno

“Ter vergonha é sentir-se intrinsecamente mau, fundamentalmente feio como pessoa” (G. Kaufman). A vergonha é um sentimento espontâneo diante de algo que nos parece feio, e por isso indigno. Ela desempenha um papel decisivo na formação de uma consciência moral reta e no processo pelo qual conquistamos a posse da nossa identidade.

Mal educada, a vergonha torna-se fonte de autoestima insuficiente, insegurança e sentimentos de inferioridade. Bem educada, é um guardião da dignidade: quando vemos nos outros, ou em nós mesmos, ações ou palavras ofensivas à dignidade, dizemos que é algo vergonhoso. O indigno é sempre vergonhoso. Por isso, quem comete ações feias e indecentes não merece nossa estima.

O pudor: o amor à própria intimidade

A vergonha traz consigo um elemento mais positivo: o pudor. Enquanto a vergonha reage ao feio já presente, o pudor o previne. É a inclinação espontânea a cobrir a própria intimidade aos olhares estranhos, a “guardar o dom e o segredo verdadeiros que não devem ser comunicados senão àquele a quem se ama.”

O pudor tem uma relação forte com a dignidade: acentua a guarda da intimidade, faz-nos mais donos de nós mesmos. É uma manifestação da liberdade humana aplicada ao próprio corpo. Autodomínio significa dignidade, pois implica liberdade, e esta significa acima de tudo ser dono de si mesmo.

O pudor se estende à interioridade espiritual, ao corpo, à casa e à linguagem. Por ser o corpo parte da intimidade, o ato de pudor é, no fundo, um pedido de reconhecimento: “Não me tomes pelo que de mim vês descoberto; toma-me como a pessoa que sou.”

Os frívolos não necessitam do pudor porque não têm nada a guardar. Por isso são tão fofoqueiros: falam muito, mas não dizem nada. Vivem para fora. Estão nus.

A compostura: o primeiro degrau da elegância

Uma vez que o pudor e a vergonha ensinam o limite entre o decente e o indecente, podemos perguntar de que modo se dá a presença do belo na pessoa. A resposta começa pela compostura, o sentido “negativo” da elegância, que quer garantir a ausência de feiura na figura e na conduta.

A compostura tem três elementos essenciais:

  • Limpeza: ausência das sujeiras e manchas que enfeiam a pessoa
  • Pulcritude: asseio cuidadoso, o cuidado com a própria presença
  • Ordem: um saber estar que regula gestos, palavras e movimentos no momento e modo adequados

Perder a compostura é uma forma de perder a dignidade. A pessoa composta tem um centro que reúne o disperso, uma regra que mede e ordena, um sossego nascido da posse de si. As boas maneiras são, nas palavras de Kant, aquilo que “transforma a animalidade em humanidade”.

A elegância verdadeira: bom gosto, distinção e naturalidade

A compostura limita-se a cuidar para que “não saiamos do tom”. A elegância vai além: é ser atraente, desenvolver o gosto e o estilo, alcançar a distinção. Tem três componentes essenciais:

1. Bom gosto

Antes de mais nada, ser elegante significa ter bom gosto: uma capacidade de discernimento espiritual que leva não apenas a reconhecer o belo, mas a ter o olhar posto num todo com o qual tudo o que é belo se conforma. O bom gosto não é inato: depende do cultivo espiritual, da educação e da sensibilidade adquirida.

2. Distinção

O distinto se opõe ao vulgar e ao grosseiro. A distinção situa a pessoa acima da vulgaridade. Hoje, ela reside mais no selo pessoal que pomos na nossa imagem, no estilo próprio e inconfundível, mais do que em qualquer superioridade de classe social.

3. Naturalidade

A elegância só é verdadeira quando não vem acompanhada de afetação e fingimento, mas se expressa com espontaneidade e autenticidade. Naturalidade não é pura espontaneidade, mas também mesura e moderação, pois o excesso destrói a elegância. Mostrar-nos como somos, de modo que o que aparece corresponda à interioridade verdadeira: isso é ser elegante.

A elegância tem uma dimensão moral

A elegância revela sua dimensão moral como fundo e substrato da dimensão exterior. Quem não vive em harmonia com seus sentimentos, quem não sabe o que quer e não age como deve, quem vive em discórdia consigo mesmo e com os outros, não pode ser elegante, porque não é bom nem senhor de si.

Para os clássicos gregos, o belo (pulchrum) é o bom, aquilo que convém ao homem e o aperfeiçoa. A pessoa que vive em harmonia consigo própria, que se autodomina e busca o bem mais alto, não é simplesmente boa: tem kalokagathia, uma bondade bela, a verdadeira elegância, que deita raízes na alma.

“Reproduzir em si próprio a beleza geral do universo é a suprema elegância.”

Ricardo Yepes Stork

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Perguntas frequentes sobre elegância

O que é elegância de verdade?

Elegância é a presença do belo na pessoa, nos gestos, nas palavras, na conduta e no caráter. Vai muito além da aparência: a verdadeira elegância nasce de dentro, da posse da própria interioridade e do autodomínio. Quem não é senhor de si mesmo não pode ser elegante, por mais bem-vestido que esteja.

Qual a diferença entre elegância e boas maneiras?

As boas maneiras fazem parte da compostura, o nível básico da elegância, que evita o que é feio e indecoroso. A elegância é mais: inclui bom gosto, distinção, estilo pessoal e naturalidade. É possível ter boas maneiras sem elegância, mas não ser elegante sem boas maneiras.

O que é compostura?

Compostura é o cuidado ativo da própria presença: limpeza, asseio, ordem nos gestos e nas palavras. É o que os filósofos clássicos chamavam de “modéstia” no sentido de moderação: a virtude que regula os movimentos externos do corpo e garante a ausência de feiura na conduta.

Qual a relação entre pudor e elegância?

O pudor é o amor à própria intimidade: a inclinação a proteger o que é íntimo e a revelá-lo apenas a quem se ama. Ele precede a elegância: uma pessoa sem pudor não tem interioridade para mostrar, e por isso sua elegância será sempre superficial. O pudico é mais senhor de si e, portanto, mais capaz de verdadeira elegância.

Como desenvolver elegância?

A elegância se aprende e se desenvolve. O ponto de partida é a compostura, o cuidado básico com a aparência e os modos. A partir daí, cultivar o bom gosto, desenvolver um estilo pessoal autêntico e, acima de tudo, trabalhar o caráter e a vida interior. A elegância exterior é reflexo da beleza interior.

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