Como é uma personalidade imatura?

Tempo de leitura: 8 minutos

Por Enrique Rojas

Será que sou uma pessoa imatura? O autor, renomado psiquiatra espanhol, oferece aqui dez pontos bastante claros que possibilitam um auto-exame preciso.


 

A personalidade é a soma dos padrões de conduta reais e potenciais e é determinada por três fatores: a herança (o nosso patrimônio genético, aquilo que herdamos os nossos pais), o ambiento (aquilo que nos cerca) e a experiência de via (a biografia de cada um). A personalidade é a marca própria e específica de cada um. O cartão de visita. Noutras palavras, a personalidade é uma organização dinâmica, em movimento, em que confluem s aspectos físicos, psicológicos, sociais e culturais de um indivíduo. Nós, psiquiatras, dedicamo-nos à engenharia do comportamento. Somos escavadores das superfícies psicológicas, procuramos aprofundar na mecânica interna do comportamento, para corrigi-lo, melhorá-lo, torná-lo mais equilibrado.

A pessoa imatura é uma pessoa a meio caminho, com uma psicologia incipiente, incompleta, que no está bem acabada e que tem muitos pontos negativos, mas que pode mudar, melhorar e tornar-se mais sólida, com a ajuda de um psiquiatra ou de um psicólogo.

Tentarei sistematizar os ingredientes principais da imaturidade, para que o leitor possa adentrar num tema tão complexo.

1. Defasagem entre a idade cronológica e a idade mental. É uma das manifestações que mais chama a atenção logo de cara. Não esqueçamos que há pessoas que amadurecem cedo e outras que levam mais tempo, e isso pode interferir um pouco na observação.

2. Desconhecimento de si próprio. Conhecer-se a si próprio era uma das normas do herói grego. No templo dedicado ao deus Apolo, em Delfos, havia a inscrição: Gnothi Seauton, “conhece-te a ti mesmo”. Trata-se de ter claro que aquilo que devemos estudar com mais afinco somos nós mesmos, temos de saber quais são as nossas limitações e as nossas atitudes. O conhecimento dessas realidades é como que a carta de navegação que nos ajuda a guiar-nos para uma vida adequada.

3. Instabilidade emocional. A instabilidade emocional manifesta-se em mudanças do estado de ânimo: o sujeito passa da euforia à melancolia de um dia para outro ou mesmo dentro de um mesmo dia. É preciso distinguir essa variação dos chamados transtornos bipolares. O imaturo é desigual, variável, irregular, os seus sentimentos movem-se e balançam como um pêndulo, de maneira que ninguém nunca sabe o que esperar dele. Essa fragilidade é um traço bem característico da imaturidade. O seu estado de ânimo pode ser representado pelos dentes de uma serra, uma espécie de montanha russa cheia de oscilações.

4. Pouca ou nenhuma responsabilidade. A imaturidade tem níveis, como qualquer outro fato psicológico. A palavra “responsabilidade” vem do latim respondere, que significa “responder”, “prometer”, “satisfazer”. Estar na realidade é ter consciência das próprias circunstâncias imediatas – o hoje e o agora –, que são inescapáveis e que ninguém pode menosprezar.

5. Pouca ou nenhuma percepção da realidade. A captação incorreta de si próprio e das circunstâncias leva o sujeito a ter um comportamento inadequado nas suas relações intrapessoais (desarmonia consigo próprio) e interpessoais (não sabe lidar com os outros, não sabe guardar distâncias e proximidades).

6. Ausência de um projeto de vida. A vida não pode ser improvisada. É preciso uma certa organização, um esquema que planeje o futuro. E os três grandes temas do nosso projeto de vida devem ser: o amor, o trabalho e a cultura. E o sujeito imaturo não assume seriamente nenhum dos três. Não se vive sem amor; o amor deve ser o primeiro motor da vida, que impulsiona e dá força aos outros dois. Do nosso comprometimento com esses três grandes temas, brota a felicidade, suma e compêndio de uma vida coerente.

7. Falta de maturidade afetiva. É preciso compreender o que é o amor e vê-lo como a vértebra da nossa vida sentimental. É o amor que dá sentido à vida. Mas não há amor sem renúncias. Além disso, é preciso ter a consciência de que ninguém é absoluto para o outro. Não há amor eterno; ele só existe nos filmes, nas canções da moda e na cabeça das pessoas imaturas. O que, sim, existe é o amor trabalhado a cada dia. Amar não significa ter sentimentos doces, mas voltar-se juntamente com o outro para as pequenas realidades cotidianas. No meu livro ¿Quién eres? (“Quem é você?”), descrevo a maturidade afetiva como uma dimensão à parte, com características próprias e específicas. Só gostaria de sublinhar uma coisa: como é fácil apaixonar-se e como é difícil manter-se apaixonado! Assistimos hoje uma verdadeira socialização da imaturidade afetiva.

8. Falta de maturidade intelectual. A inteligência, assim como a afetividade, é outra das grandes ferramentas da psicologia. Há muitas formas de inteligência: teórica, prática, social, analítica, sintética, discursiva, matemática, analógica, intuitiva e reflexiva… Mas façamos uma idéia clara: uma pessoa é inteligente quando sabe focar um tema, fazer raciocínios e juízos adequados sobre a realidade, quando é capaz de formular um conjunto de soluções exeqüíveis e positivas para problemas concretos. Na linguagem mais moderna da psicologia cognitiva: inteligência é saber receber a informação a informação, codificá-la e ordená-la de corretamente a fim de oferecer respostas válidas, coerentes e eficazes. Nesse campo, as manifestações de imaturidade são ricas e variadas: falta de visão e planejamento do futuro; hipertrofia do presente e exaltação do instante; falta de justiça nas análises pessoais e gerais; sérias dificuldades para racionalizar os fatos e aplicar-lhes um certo espírito cartesiano. A vida é como um viagem e por isso é importante saber aonde se quer chegar.

9. Pouca educação da vontade. A vontade é uma una joia que enfeita a personalidade do homem maduro. Se é frágil e não foi temperada pro uma luta constante, transforma o sujeito em um tipo débil, mole, volúvel, caprichoso, incapaz de propor-se objetivos concretos, já que tudo se desfaz com o primeiro estímulo que vem de fora e o faz abandonar a tarefa que levava a cabo. É a imagem do menino mimado, que é digna de pena: levado, arrastado e tiranizado por aquilo que é mais gostoso, aquilo que o corpo pede no momento. Não sabe dizer “não”, fazer renúncias. Um menino estragado, paparicado, malcriado, que se dobra diante de qualquer exigência séria, que nunca superará as suas próprias possibilidades. Um ser que aprendeu a não se vencer, mas a seguir os seus impulsos imediatos. Por essa via, tornou-se um sujeito volúvel, inconstante, leviano, superficial, frívolo, que se entusiasma facilmente com algo para abandoná-lo logo que as coisas ficam minimamente difíceis.

E isso acarreta outras conseqüências. O sujeito apresenta baixa tolerância às frustrações, é um mal perdedor, pois tem pouca capacidade de superar as adversidades uma vez que não está acostumado a vencer-se em quase nada; e há também uma tendência a refugiar-se num mundo fantástico a fim de escapar da realidade.

10. Critérios morais e éticos instáveis. A moral é a arte de viver com dignidade, de usar corretamente a liberdade, de conhecer e pôr em prática aquilo que é bom. Na pessoa imatura tudo está preso por alfinetes que se soltam facilmente. A moda, a permissividade, o relativismo pautam a sua vida. Ele segue os vaivens das novidades sem nenhum espírito crítico.

A maturidade é uma das pontes levadiças que conduz à fortaleza da felicidade e é resultado de um trabalho sério e paciente de perder e agregar, de polir, de limar, de procurar que a nossa forma de ser seja como uma pedra dessas que vemos nos rios que quase não têm arestas.

 

Enrique Rojas: Psiquiatra espanhol especializado em temas como ansiedade e depressão. Recebeu prêmios na Espanha e no estrangeiro e os seus muitos livros  são conhecidos em diversos países. Algumas das suas obras estão traduzidas para o português, entre elas: “O homem light”, “A ansiedade” e “Remédios para o desamor”.

Fonte: Interrogantes.net

Tradução: Cristian Clemente

14 Comentários

  1. Giselle

    Infelizmente casei com um ser que nao possui nenhuma maturidade na vida. E hoje sofro as consequencias dessa escolha. Sou muito infeliz, frustada e sem energia para nada. Acabei com minha vida.

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    1. Wellington Penido

      Não pense dessa maneira, pois se você tem a percepção própria de que é madura, é sua missão como ser humano auxiliar a quem está do seu lado precisando de ajuda. Você não estragou sua vida, pois nada que vem de “fora” tem esse poder. A maior força vem de dentro, de onde nada nem ninguém pode retirar! Não perca a fé e a esperança, e tenha sempre o amor, pois sem ele nem a fé nem a esperança valem de nada… Força em sua batalha.

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    2. Elizabeth

      E o que é pior….o imaturo tem que sempre achar alguém para colocar a culpa das frustações dele . Eu também tive um em minha vida por 15 anos. Não via luz no fim do túnel,pois eram tantas as promessas que iria melhorar…mas , enfim , não resistimos e houve a separação .Ele até hoje põe a culpa de tudo em mim . Não assume nada . Não se coloca dentro da situação . Ele é uma vítima . Instável . Humor dificil. Uma pessoa que nunca podia contar com ele , pois mudava de opinião a todo instante. Fazia- se um projeto e quando ia se realizar o mesmo , ele já não queria mais. Sempre infantil , carente. E quando eu propunha a conversar se calava. Não respondia.Dizia que não tinha nada a dizer. Culpa você por tudo ,se fazia sol ,se fazia chuva, se estava feliz ou triste , a culpa era sempre minha. Se fechava , tinha picos de humor que iam de um extremo ao outro . Só num acabei com minha vida e nem enlouqueci porque sou uma mulher muito forte. Mas venci ! Vivo só e com muito medo de arranjar um outro assim !

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